Ferrari SF-26 vermelha de Charles Leclerc em ação no circuito do GP de Miami 2026

Ferrari no GP de Miami 2026: o pódio que escapou nas últimas voltas

A Ferrari chegou no GP de Miami 2026 com o pacote mais agressivo de upgrades de toda a temporada. Onze peças novas: asa dianteira, assoalho otimizado, asa traseira reperfilada, suspensão revisada. Charles Leclerc largou em terceiro, herdou a liderança nos primeiros segundos da corrida, ficou no pódio até as voltas finais. Saiu de Miami em oitavo.

Não em sexto, como cruzou a bandeirada. Em oitavo. Os comissários esperaram o fim da corrida, somaram cortes acumulados na última volta e converteram o drive-through em 20 segundos de penalidade. Hamilton, do outro carro vermelho, herdou o sexto. Franco Colapinto subiu para o sétimo, melhor resultado da carreira. E a Ferrari saiu do circuito do Hard Rock Stadium com pacote pesado, largada limpa, liderança nos primeiros segundos — e o pior resultado possível dado o cenário.

Vamos por partes.

Como a Ferrari chegou ao GP de Miami 2026

A Ferrari não fez essa estratégia por acaso. Depois de quatro corridas vendo Mercedes dominar, McLaren reagir e Red Bull fechar o gap, Maranello apostou todas as fichas em Miami: trazer um pacote completo, fechar a diferença de uma vez, voltar à briga real do campeonato.

Na sexta, na FP1, Leclerc liderou a sessão. Sinal verde. Na qualificação do Sprint, ficou em quarto. Na qualificação do GP, sábado, foi terceiro, atrás de Antonelli e Verstappen, à frente das duas McLaren. O carro tinha ritmo. As upgrades pareciam funcionar.

E na largada de domingo, com Antonelli e Verstappen travando pneus na primeira curva e Verstappen ainda tocando em Leclerc para rodar 360 graus, foi o monegasco quem herdou a liderança. Por alguns segundos, em Miami, a Fórmula 1 de 2026 era vermelha de novo. Foi o ponto mais alto do domingo da Ferrari. Tudo depois disso é o pacote falhando em capitalizar um cenário que pareceu bom demais para ser verdade.

Os 3 momentos que tiraram o pódio da Ferrari em Miami

1. O carro que rodou colocou Leclerc na frente — mas com o carro danificado. O contato com Verstappen na T1 não terminou sem custo. Leclerc seguiu liderando, mas com dano no carro que só foi pesar mais tarde, quando ficou claro que ele tinha menos performance disponível do que o ritmo aparente sugeria. A Ferrari herdou a liderança numa circunstância que parecia ideal e não conseguiu transformá-la em margem.

2. O pit stop lento e o undercut da Mercedes. Na lap 21, Leclerc parou para hards e a Ferrari teve um pit stop de 3.7 segundos — lento o suficiente para queimar tempo de pista. Cinco voltas depois, na lap 26, a Mercedes trouxe Antonelli para hards. Norris, líder em ar limpo, só pitou na lap 28. Quando voltou, voltou atrás do italiano. A Mercedes não passou Leclerc na pista. Passou no pit lane, com estratégia mais limpa e parada mais rápida. Para a Ferrari, foi a vitória escapando sem briga.

3. A última volta de Leclerc. P3 era da Ferrari. Pneu velho, carro com dano herdado da T1, McLaren de Piastri colando atrás, Russell e Verstappen recuperando no final. Na última volta, na T3, o monegasco rodou em alta velocidade, evitou um acidente maior mas tocou o muro pela frente esquerda. Piastri passou. Russell passou. Verstappen passou. Em três curvas, Leclerc caiu de P3 para P6.

E aí veio a parte que ninguém fez na pista: a investigação dos comissários. Cortes de pista acumulados durante a recuperação pós-spin, julgados pela FIA como saídas “sem razão justificável” mesmo com o argumento de Leclerc de que tinha problema mecânico para virar à direita. Drive-through convertido em 20 segundos. P6 virou P8.

O problema crônico que o GP de Miami 2026 escancarou na Ferrari

Aqui está a parte difícil: nada disso é novo.

Há três temporadas a Ferrari mostra o mesmo padrão. Carro com bom ritmo de classificação, dificuldade de extrair tudo no pneu soft, janela de operação estreita demais para sustentar performance quando todo mundo aperta. A diferença em 2026 é que o regulamento mudou completamente: chão parcialmente plano, asas ativas com Straight Mode e Corner Mode no lugar do DRS, motor 50/50 elétrico-combustão. Tudo novo. E, mesmo com todo esse ar fresco, o problema antigo voltou.

E voltou na situação mais desfavorável imaginável para uma análise honesta: a Ferrari teve a liderança de graça na T1, teve o pacote mais pesado da temporada no carro, teve o piloto certo no momento certo. Não bastou. Não foi nem questão de “Mercedes mais rápida na pista” — foi pit stop lento, foi estratégia menos afiada, foi piloto rodando com carro danificado, foi penalidade pós-corrida por cortes que a FIA julgou injustificáveis.

Hamilton, ao fim da corrida, foi mais direto: “Esperava que fôssemos mais fortes.” Leclerc assumiu: “Coloquei a corrida no lixo.” Não dá pra ser mais transparente do que isso.

A questão técnica continua sendo a janela de operação. O pacote de Miami funcionou na FP1 e na quali, mas conforme a corrida acelerou, a margem evaporou. Onze upgrades. O pacote mais ambicioso da temporada. E o resultado é o mesmo que a Ferrari conhece: fora do pódio, atrás dos rivais diretos, com penalidade no boletim.

Hamilton, Leclerc e o que vem depois para a Ferrari em 2026

Três semanas até o GP do Canadá. Maranello vai ter que decidir o que fazer com um pacote que custa caro, não rendeu o pódio que parecia ali na T1, mas que ainda é a base aerodinâmica para o resto da temporada. Voltar atrás em algumas peças? Recalibrar? Aceitar que a janela de operação é o que é e adaptar a estratégia?

Para Hamilton, o resultado é parte de uma temporada já complicada. A vinda para a Ferrari era para mudar tudo. Mudou o cenário, não o resultado. Ele segue na briga do campeonato, herdou um P6 que vale pontos, mas continua atrás de Leclerc em ritmo na maioria dos fins de semana.

Para Leclerc, é mais um capítulo de uma série que ele conhece bem. Larga bem, lidera no início, oscila no meio, perde no final — e desta vez ainda com penalidade pós-corrida. Em 2026, com novo regulamento e nova estrutura técnica, a história não pode se repetir.

O GP do Canadá em Gilles Villeneuve é uma pista diferente: muros, freadas pesadas, asfalto evoluindo rápido. Pode ser onde o pacote da Ferrari finalmente encontra a janela certa. Pode ser também onde McLaren ou Red Bull tomam de vez a vice-liderança da temporada. A diferença entre os dois cenários, em três semanas, vai sair do que Maranello fizer entre agora e o avião decolando para Montreal.


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